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  • Ekatala Keller

Curiosidades #2 #prazercasa08 #roteiro #inspiracao

Quando eu escrevi este texto, eu não pensei em publicá-lo. Foi uma amiga (recentemente) que me pediu para eu escrevê-lo quando citei que o mais difícil não foi produzir um filme, mas sim, sair da zona de conforto e estudar cinema. A partir disso, encontrar as maneiras de realizar uma primeira produção de forma independente.

O texto a seguir foi o mais difícil para mim. Por isso enumerei como #2 das curiosidades do Prazer, não apenas por ser um assunto que me inspirou a roteirizar o filme como também foi o portal para a criação da produtora Gatamel Estúdio Arte, sem a qual a realização do filme "Prazer, Casa 08" seria impossível. ❤

Dedicado para a minha gatinha Frêda Mel.




"O cinema cura a alma da gente" por Ekatala Keller


Um pequeno acaso

Tudo começou quando eu adotei uma gatinha. Uma felina de 07 anos, resgatada do Aterro do Flamengo, e que era uma donzela “gatinha de sofá” (logo descobri o que isso significava: ela apresentava sinais de depressão por ter sido abandonada por seus próprios donos e ter vivido entregue a todo tipo de sorte que uma gatinha precisa ter para sobreviver nessas condições). O seu nome era Melancia. Só que Melancia não era um bom nome para uma gatinha tão pequenina, então a batizei de Mel. Frêda Mel.

Quando ela chegou em minha casa, o seu novo lar, ela se assustou e se escondeu. Adoeceu, quase morreu. E ficou três dias sentada na porta da lavanderia, dormindo na caixinha de areia. Sozinha, isolada em si mesma, sem apetite e sem sede de água e de viver.

Até que, no quarto dia de isolamento, eu me sentei ao seu lado e conversei com ela. Expliquei que agora ela estava segura, que eu a amava muito, e que não importava tudo o que ela já tivesse vivido, todas as dores inclusive, que eu estaria ao seu lado, com todo amor. Eu pedi para que ela quisesse viver. Falei tão suavemente na linguagem que somente o coração entende. E ela entendeu, e confiou novamente. No dia seguinte, ela se arriscou corajosamente a seguir novos passinhos pela casa, e rapidamente já estava com um novo astral, redescobrindo o prazer de ser uma gatinha vivaz novamente.

A menina só

Tudo aconteceu quando eu era criança. Uma menina magrelinha e criativa, que sem entender direito o significado da palavra abuso, congelou o corpinho para não sentir o que nem conseguia entender: não era carinho, era abuso sexual. Essa criança se congelou dentro de mim, e tornou insensível partes importantes do meu corpo e da minha sexualidade, me fazendo conviver com sentimentos novos de vergonha e inadequação, calando a minha energia vital e instintiva. A partir dessa experiência desprezível, que marcou de forma traumática a minha vida em vários sentidos, eu me senti estranhamente culpada e responsável pela felicidade de todos os outros, menos da minha.

Eu precisei resgatar essa criança interior, ferida em meu coração. Eu precisei reencontra-la e dizer a ela que eu a amava muito, que cuidaria com todo amor e que não importava a dor que ela tivesse vivido, que eu a perdoaria por ela não ter se defendido, nem ao menos ter entendido os fatos infelizes que a marcaram tão profundamente. Eu queria muito viver o meu prazer, ir além dessas memórias, confiar novamente na vida e nas pessoas. Queria arriscar novos passos, descobrir a artista que eu sabia habitar em mim, e ser vivaz novamente. Eu precisava resgatar essa criança pois ela era a minha alma. Incrível como até hoje, ao falar disso, me sinto vulnerável como o se o fato tivesse acontecido agora; o tempo não passa para esse tipo de memória, passe o tempo que passar.

E foi assim, que a Mel me ajudou. A gatinha tão pequenina que eu adotei. Ela me mostrou as coisas mais simples quando eu já havia me esquecido de tudo isso, me mostrou como dormir o sono mais profundo, e a brincar com os ratinhos e com as flores da vida. A Mel me despertou a coragem para seguir novos rumos, e foi assim que eu fui estudar cinema. Este é o meu primeiro filme, e aprendi que o cinema cura a alma da gente. Por isso, agora, posso compartilhar, escrever, falar e dançar o meu corpo e me expressar sem medo de ser feliz, junto das pessoas que eu amo, inspirada nos meus amigos e artistas que eu encontro, e em você, que está aqui, comigo, lendo este texto.

Aliás... Prazer, quem é você?




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© 2020 por Devananda
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